Escreva para o Canto

PAZ

Do alto contemplei o dia descendo sobre o mar. A ondulação da terra enchera-se de sombras purpúreas, os telhados tinham pinceladas de ouro bronze. Uma ligeira brisa agitava-se sobre a terra, levando no seu frêmito o aroma dos lilases e das rosas. Esta é a minha hora predileta, aquela entre o dia e o crepúsculo, em que o olhar repousa na crueza do sol e o espírito ainda não tocado pela melancolia da escuridão. As cicadáceas ainda imóveis e os grilos ainda não haviam começado seu monótono trilar, então pensei: Sou um homem de sorte. Poucos foram os que até aqui chegaram e, conservaram um coração forte e fácil digestão, para desfrutar um jardim calmo onde cantam as filhas do crepúsculo. Poucos foram os que ouviram as vozes cristalinas sussurrarem aos ouvidos lembranças tão nítidas de momentos eternamente felizes… Apesar disso, nas noites de insônia de um velho homem, surgia-lhe a dolorosa pergunta: porque uns tem tanto, enquanto muitos não têm absolutamente nada? Será isso uma ironia divina a ser revelada ou tão somente um mundo de esquecimentos e revoltas?

Eu, que às vezes penso em parar para viver o que ainda não me permiti até hoje, mas que em momentos de euforia, levanto a ancora imaginária do barco da vida e vejo as suas velas esfumadas pelo vento singrando mares, e assim, eu atravesso fronteiras, oceanos e nelas disperso as minhas enfermidades e os fardos. Nessa viagem eu sou feliz, quando volto à vida real vem-me à mente de que no juízo final terei que depender unicamente da misericórdia de Deus e dos méritos de outros que merecem mais que eu. Dessa feita volto a pensar. Um homem como São Francisco de Assis, o que significa ele na realidade? Um rompimento completo com os padrões da história… Um homem nascido fora do seu tempo? Uma súbita e inexplicável revivencia do espírito primitivo do Cristianismo. Um pensamento acima de todas as emoções humanas, afinal, santificado. Ele que dispensou tudo e tentou mostrar que há além da opulência há uma fartura imensurável de saber, de bondade infinita, e de DEUS. Assim, reporta-nos que o contentamento é uma dádiva que se deve aceitar com gratidão e não se deve pagar, tal como não há preço para a luz do sol ou para a canção de um pássaro. No Brasil, a internet que é uma realidade ao alcance de todos e, não obstante a comunicação de forma relampejante em um raio que dispensa as fronteiras da insanidade ou não, chega-nos a insatisfação apoteótica e com ela a revolta justificada ou não. Exposição de motivos e afloram ideologias políticas, as mais diversas. Ruas congestionadas, protestos de tudo e também de nada, revolta, agressão, subtração do patrimônio alheio e depredação, revolta, ódio de pessoas comuns e que nada tem a ver com as deformidades políticas, sociais, ideológicas ou mesmo de todas as formas de tornar o mundo muito pior do realmente já é. Chega! Basta! Não precisamos de mais uma guerra urbana para expressar os nossos sentimentos. E se não podemos nos amar, assim como o Cristo nos ensinou, pelo menos, vamos esquecer as diferenças que temos comumente temos e vamos de mãos dadas pregar a caridade, o amor e o perdão e principalmente dizer que é possível, um mundo quase perfeito onde o amor impere e seja assim…

Airton Gondim Feitosa

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