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A fila do caixa eletrônico parecia não ter fim. O ar condicionado não estava conseguindo manter o clima tolerável, na quente e seca Brasília.

Logo atrás de mim, duas animadas senhoras contavam sobre a vida de todos, menos delas. E como a bateria de meu celular tinha acabado, fiquei ouvindo a conversa, meio contra vontade, até que o assunto começou a me interessar, timidamente. Fui absorvendo cada palavra.

Pelo que pude compreender, elas falavam de um homem de meia idade, poucos amigos e que trabalhava a longa data na mesma empresa. Um dia, ele resolveu caminhar à noite em um parque de diversões próximo à sua casa. Lá, em meio aos brinquedos e jogos de azar, notou uma sorridente senhora, sentada atrás de uma mesa, no fundo de uma tenda bem iluminada. Ele chegou mais perto e conseguiu ler um desgastado cartaz: Madame Lara, vidente. Descubra seu futuro.

Ele, cujo nome não entendi naquela hora, resolveu entrar na tenda e sentou-se à frente da Madame. Ela, que o seguia com os olhos enquanto aproximava-se, estendeu a mão e apertou com força. Ela já foi explicando que conseguia ver o futuro. E que hoje era o dia de sorte dele. Não iria cobrar nada. Seria um presente dela.

Chegou minha vez de usar o caixa eletrônico e o fiz o mais rápido que pude. E coloquei-me ao lado delas, para tentar ouvir o restante da história. Ainda bem que não perdi nada.

Após a vidente falar que não cobraria nada do homem, ele disse que não acreditava em daquilo, mas tinha curiosidade sobre os métodos que ela usava. Ela sorriu ainda mais e balançou a cabeça, com uma leve reprovação. Pediu para que ele segurasse de novo a mão dela e fechasse os olhos. E assim foi feito. O som dos brinquedos continuava sendo notado. Sem querer, lembrou-se do tempo de colégio, que queria frequentar aqueles lugares de luzes coloridas.

Ao abrir os olhos, notou que a bela senhora vidente não mais sorria. E em seus olhos imperava uma tristeza que ele desconhecia existir. Seu coração bateu mais rápido e resolveu perguntar a ela o que foi que aconteceu. Ela soltou rapidamente sua mão e perguntou se ele queria mesmo saber do futuro. Ele balançou lentamente a cabeça, concordando. A mulher respirou profundamente e disse, sem medir as palavras: você vai morrer daqui a dois dias e não há nada que você ou eu possamos fazer.

As duas senhoras tentaram utilizar por algumas vezes o terminal, mas esse não queria obedecer. Não restou outra saída do que procurar o gerente, mas a fila estava maior ainda. Pensei “que sorte a minha” e fui atrás delas de novo, só que tive que esperar um pouco para entrar, pois a porta travava toda vez, denunciando algum objeto de metal em minha posse. Sentei na cadeira mais próxima delas, mas, perdi parte da conversa. O homem já havia chegado em casa.

Paulo (sim, descobri o nome do sujeito) não conseguiu dormir naquela noite. Por mais que não acreditasse nessas histórias, aquilo havia mexido com ele. Estava quase desesperado, mas não queria conversar com ninguém. Não tinha coragem de falar o que houve. Sentia vergonha. E às vezes ria nervosamente de si mesmo por acreditar, em parte, no que aquela “velha cigana” havia falado.

No meio da bagunça que estava sua cabeça, decidiu ser racional e disse que iria esquecer aquela besteira. Ele tentou, mas sua vida virou de cabeça para o ar. Não aceitava mais que a correria do dia interferisse nas coisas que lhe faziam bem. Gostava muito de seu trabalho e continuou fazendo da melhor forma que conseguia. Empenhou-se ao máximo. Mas, não levava trabalho para casa. Saía da empresa e se transformava. Esquecia os problemas e vivia sua vida. Chegou cedo em casa naquele dia, deixou o carro na garagem e foi andar no parque. Tomou uma água de coco. Catou os lixos do chão, que outras pessoas jogaram. Voltou para casa, tomou um banho demorado. Ligou para sua mãe e falou que a amava muito. Dormiu bem aquela noite.

O gerente chegou e chamou uma das senhoras para tentar resolver seu problema. Eu não resisti e me apresentei a outra, que havia ficado sentada. Ela disse que tinha visto que eu prestava muito atenção na conversa delas. Disse que sim, e que não iria embora enquanto não soubesse como terminava. Sorrir e depois de alguns instantes ela continuou me contando a história.

Paulo acordou bem cedo e correu para ver o sol nascer. Chorou ao apreciar a beleza de uma manhã. Foi para o trabalho. Adiantou tudo que conseguiu e próximo ao horário do almoço avisou que iria sair mais cedo e não voltaria no trabalho aquele dia. Saiu apressado e foi a uma loja de perfumes. Não que ele gostasse, mas tinha algo que era muito especial para ele. E ela estava lá, sentada em sua cadeira, cuidando de embalar os produtos comprados. Ele chegou e ela sorriu e o cumprimentou. Amigos de longa data. Ele resolveu chamá-la para almoçar e disse que era muito importante.

Algumas dezenas de minutos depois saíram para almoçar e ela disse que estava muito curiosa. Sentaram, fizeram o pedido e ele disse que ela era uma pessoa muito especial para ele. E estendeu uma caixinha pequenina, bem embrulhada. Ela abriu rapidamente, e lá estava uma borracha de apagar bem velha, dessas que não se fabricam mais. E na borracha amarelada pelo tempo estavam duas letras desenhadas, escritas dentro de um pequenino coração: B e P.

Ela sorriu muito e disse que não sabia que ele tinha guardado aquilo desde os primeiros anos de escola. Paulo falou que havia “roubado” dela um belo dia e que há alguns anos tinha encontrado. Conversaram mais um pouco e ela disse que estaria livre no outro dia, se ele quisesse ir ao cinema. Paulo falou que ligaria para combinar e se despediram.

E ele fez tudo o que queria há muito tempo, jogou em seu computador, dormiu assistindo os seriados preferidos, ouviu seus discos de vinil, escreveu, leu e ficou olhando para o tempo da varanda de sua casa.

Adormeceu ali mesmo e assustou com o sol forte iluminando seu rosto. Era o terceiro dia. E ele estava vivo. Nunca o mundo pareceu tão belo. Todas as possibilidades. Todos os sonhos a serem realizados. O que era velho foi renovado. A vida estava apenas começando.

A outra senhora voltou e fez sinal para irem embora. A que estava conversando comigo pediu mais cinco minutos e continuou me contando a história.

Ele correu para o parque e foi falar com a vidente, mas ela ainda estava dormindo e seu filho não deixou acordá-la. Paulo explicou que precisava mesmo conversar um pouco com ela, por causa de uma coisa que ela tinha dito para ele alguns dias atrás. O jovem perguntou se ela tinha dito que ele iria morrer em dois dias. Paulo, espantado, balançou a cabeça, concordando. O jovem riu e disse que falava aquilo para todos, e que ela tinha graves problemas de memória e que com certeza nem se lembraria dele.

Paulo ficou perplexo a situação e se exaltou com o jovem falando que aquilo não se fazia com ninguém, colocar uma pessoa incapaz para prestar serviços ao público. O jovem aproximou-se mais de Paulo e encarou friamente e disse: meu senhor, que mal minha mãe fez para você?

Paulo não sabia o que falava. Ficou completamente imóvel. Depois de alguns segundos, respondeu a pergunta: Meu jovem, sua mãe salvou a minha vida! Diga isso para ela.

E foi embora, caminhando calmamente, olhando desconfiado para o trânsito engarrafado ao lado. E sabia que nunca mais voltaria naquele parque ou em qualquer outro. Tinha muito o que fazer. E faria.

Balancei a cabeça, dizendo por símbolos que gostei da história. A senhora passou a mão em meu cabelo e me perguntou como eu achava que ela sabia daquilo tudo.

Eu não consegui achar uma resposta. E nem precisava. Ela se levantou e deixou cair um cartão de visita. Não tive coragem de pegá-lo, mas li parte dele: Madame … vidente.

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Roberley Antonio

Escritor e fotógrafo. Membro fundador da Academia de Letras do Brasil. Coordenador da comunidade Canto do Escritor.

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