DANADO DE BOM

DANADO DE BOM

Por Marcos Fabrício Lopes da Silva*

A Gustavo Dourado, reconhecemos o grande empenho pelo cordel entre nós. Em Cordelos (2018), ele se desdobra em outros para tecer biografias iluminadas de razão e sensibilidade. Os contemplados são personalidades de diversos estilos e contribuições vistosas. A nossa humanidade, ao se mirar no exemplo de seres tão formidáveis, tem a chance de se reconhecer na sua melhor versão. Considerando que as origens da literatura de cordel são relacionadas ao hábito de contar histórias, Gustavo Dourado tem norte imaginativo para enaltecer energias de vida que foram fundamentais para o bem-estar da humanidade. A gente aprende pelos cordéis neste livro encontrados a diminuir o vínculo entre mudança e crise. É pelo ímpeto anárquico de pessoas inconformadas que o Brasil e o mundo experimentaram processos de plenitude que se fizeram fundamentais para o progresso dinâmico do viver em sociedade.

O antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), ao descrever o cordel em sua originalidade nordestina, atribui a sua função poética à capacidade de “fotografar”, isto é, de apresentar uma imagética por meio das palavras. O que parece importante na conceituação do gênero literário e de sua forma de linguagem é o fato de que o cordel parece sempre enfatizar o ponto de vista de quem narra. Por isso, não constrói um sujeito distante que descreve e classifica, mas um sujeito que narra e, ao narrar, produz uma nova forma de conhecimento sobre o narrado. Com isso, revela-se justamente a capacidade de fazer uma síntese específica do cotidiano, dos escritos, do ouvido, do vivido, construindo um ponto de vista sobre o mundo.

Acompanhar os cordéis de Gustavo Dourado é elevar a temperatura da poética, entendendo por temperatura o nível de mobilização para um universo em formoso encanto, reconhecendo individualidades que multiplicaram testemunhos de transformação esplêndida por onde passaram. Dispostos nas narrativas do cordelista estão um conjunto de biografias que buscaram, ao mesmo tempo, enfraquecer as hierarquias da sociedade e fortalecer os poderes da humanidade. Estes “seres de luz” diminuíram a distância entre os atos corriqueiros com que nós os reproduzimos e os atos excepcionais com que nós os refazemos. Em alusão ao sociólogo Boaventura de Sousa Santos e ao cantor Luiz Gonzaga (1912-1989), respectivamente, eis o time de “rebeldes competentes” escalados pelo cordelista Gustavo Dourado para compor este livro “danado de bom”:

Anísio Teixeira, Antonio Candido, Ariano Suassuna, Augusto dos Anjos, Auta de Souza, Bernardo Élis, Boris Schnaiderman, Carlos Heitor Cony, Cassiano Nunes, Castro Alves, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Cora Coralina, Cruz e Sousa, Drummond, Érico Veríssimo, Euclides da Cunha, Fernando Pessoa, Fernando Sabino, Gerardo Mello Mourão, Gonçalo Ferreira da Silva, Graciliano Ramos, Gregório de Matos, Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Hilda Hilst, Içami Tiba, João Cabral de Melo Neto, João Ubaldo Ribeiro, Jorge Amado, Jorge de Lima, José Lins do Rego, José Saramago, Josué de Castro, Leandro Gomes de Barros, Lima Barreto, Luís de Camões, Machado de Assis, Manoel de Barros, Manuel Bandeira, Maria Firmina dos Reis, Mário de Andrade, Nísia Floresta, Oswald de Andrade, Patativa do Assaré, Paulo Freire, Qorpo-Santo, Rachel de Queiroz, Rubem Alves, Samuel Rawet, Sousândrade, Torquato Neto e Vinícius de Moraes.

Gustavo Dourado mostra que a qualidade mais importante do Brasil é sua vitalidade. O Brasil é, antes de mais nada, vida. Quem pensa com mais profundidade ama o que tem mais vida. Por esse critério, o nosso país é amável. No cerne da civilização brasileira, há um sonho. O sonho é a reconciliação da pujança com a ternura. Quando a imaginação – sobretudo a imaginação institucional – der olhos à rebeldia, teremos também grandeza. “Cordel – poesia do povo/É arte universal/Presente em todo o Brasil/Do Nordeste ao Pantanal/Critica, analisa e questiona/Quer um mundo mais igual/Cordel pulsa na alma/Tem raiz sentimental/É a voz de nossa gente/De um povo sem igual/Que luta para mudar/Esse mundo desigual” – enfatiza Gustavo Dourado a importância da nossa tradição contestatória. Quanto ao conservadorismo nacional, sabemos que a sentimentalização das trocas desiguais tem sido a fórmula tradicional das relações sociais no Brasil. Por essas e outras razões, é imprescindível saber do valor de Gregório de Matos: “Poeta-síntese do barroco/Pensador original/Autêntico brasileiro/Escritor primordial/Burlesco e bem mordaz/Um crítico fundamental”. Paulo Freire também é essencial, muito bem registra o cordelista: “Democracia e crítica/Análise… participação/Conquista da independência/Combate à colonização/Países do Terceiro Mundo/Processo de emancipação/Interação cultural/Papel da educação/Colonialismo crônico/Sobre a população/Países em movimento/Em busca da libertação”.

Cordelos reúne o que há de melhor em termos literários: o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. Não há uma escola, como não há um estilo literário que dê abrigo ou empreste ares acadêmicos à Literatura de Cordel que é, em si, uma manifestação político-ideológica das classes subalternas que findaram por descobrir um meio através do qual seus anseios possam, de alguma maneira, chegar ao conhecimento dos que detêm poder. Não à toa, o livro de Gustavo Dourado começa homenageando o educador Anísio Teixeira: “Pensava com amplitude/Queria transformação/Pela escola integral/Lutava com devoção/Da base ao superior/À completa Educação”.

Torna-se imprescindível que as manifestações culturais busquem e, verdadeiramente, encontrem meios que promovam o aguçamento das consciências críticas ante a realidade da vida e do mundo, o que fortalecerá na busca das transformações necessárias. Neste sentido, Gustavo Dourado assim se refere à importância do professor Antonio Candido: “Foi militante político/Bom analista social/Interpretou o Brasil/E a cultura nacional/Mestre que nos é guia/Tem amplitude universal”. O cordelista também acolhe a genialidade do professor Cassiano Nunes, reconhecendo nele notáveis virtudes: “Salve o Poeta Cassiano/Grão-Mestre da Literatura/O Livro foi a sua vida/Foi expert na leitura/Agora lê no infinitom/Livro-filme de eternura”.

Com disposição universal, Cordelos encontra-se na tradição literária do “Romanceiro Popular do Nordeste”, como diria Ariano Suassuna, em O Movimento Armorial (1974). Gustavo Dourado procura dar conta das nuances existentes entre tradição e inovação, oralidade, performance e escrita, literatura canônica e literatura popular, entre outras questões. À maneira gramsciana, o cordelista é um dos principais “intelectuais orgânicos” do cordel brasileiro. Com talento individual, dialoga admiravelmente com o paraibano Leandro Gomes de Barros: “Criou o Canção do Fogo/Foi dínamo da poesia/O cordel tem sua marca/Sua luz, sua magia/Registrou o seu talento/O que fez foi alquimia”.

O gênero biográfico, na obra de Gustavo Dourado, se apresenta como espelhamento das virtudes humanas, a partir de tipos pessoais interessantes e capazes de atos extraordinários que ultrapassam o limite das ações ordinárias. Por isso, o tom elogioso predomina no repertório textual do cordelista. Mais do que o trabalho literário, trata-se de uma sincera expressão das admirações de quem escreve. Cordelos é um livro romântico-realista, revelando um noticiário positivo e edificante. O cordelista se notabiliza pelo retrato pulsante de pessoas dignas, sem cair na tentação de endeusá-las como seres perfeitos. Sobre o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1998, ficamos sabendo que: “Preocupa-se com a Língua/É firme em sua mensagem/Quer um Mundo bem melhor/Além da Terceira Margem/Saramago nos encanta/Com os mistérios da linguagem”.

No cordel “Literatura Brasileira”, Gustavo Dourado fez um levantamento de ouro relativo aos fundamentos e perspectivas que cercam o referido assunto desde “os textos informativos/Crônicas da nova terra/Ainda não se romanceava/À poesia não se emperra/Em Pero Vaz de Caminha/Índios, plantas, mar e serra” até “novos nomes surgirão/Sem demora e destarte/O tempo é limitado/É grandiosa a arte/A poesia continua/Cada um faz sua parte”. Uma das partes mais emocionantes de Cordelos é a declaração de amor do cordelista diante do livro que tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo: “O livro liberta o Ser/Revoluciona o pensamento/Floresce a Sabedoria/Desperta o conhecimento/Revolta a calmaria/Faz tempestade no vento/Leitura ferve a alma/Queima a ignorância/Vulcaniza o coração/Desvela a nossa infância/Revela o movimento/Dá asas à militância”.

Através do cordel dedicado a “Machado de Assis”, Gustavo Dourado acabou revelando como o Bruxo do Cosme Velho foi decisivo para construir uma literatura arrojada que ultrapasse os limites do instinto de nacionalidade proposto pelo Romantismo: “Muitos anos sem Machado/E ele sempre presente/Sua arte é escultura/Que orgulha nossa gente/É cânone da literatura/Do Ocidente ao Oriente/Seu romance transcendeu/Para além da dialética/É obra de bom calibre/Que equilibra a ética/É pedra filosofal/Quintessência da estética”.

Pelo livro de Gustavo Dourado, Cordelos, percebem-se a dor do parto mental e a consequente alegria da maternidade artística. É um produto literário consciente, um retrato transfigurado do real a favor das verdades humanas gerais, uma linguagem carregada de significado que expressa uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros, para denunciar aquilo que machuca e compartilhar o que traz alegria. É o mar de gente e, ao mesmo tempo, o rio de pessoa. É o espetáculo da vida através do olhar interpretativo do eminente cordelista.

* Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG.

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