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Paulo Valença
Os sapatos pretos, de saltos altosImprimirE-mail
Canto do Escritor -
Qui, 01 de Julho de 2010 15:26
Escrito por Paulo Valença

 

1

Menino não entendia  as saídas da mãe, geralmente à noite.

Alva, esguia, alta, rosto bonito, cabelos negros, lisos, longos e a voz suave:

- Obedeça a D. Marta, filhinho.

Ele recebia o beijo na face e continuava calado lhe acompanhando os gestos e o andar em direção a porta de saída. A porta batia por fora. Os passos dos saltos altos cruzando o terraço. A zoadinha do portão ao ser aberto e os passos descendo a rua. Para aonde ia à mãe? Ao lado a mulher gorda, amulatada então lhe alisava a cabeça em gesto de carinho, como se lhe compreendesse a dolorosa indagação íntima. 

Um dia, de repente entendeu. E nada disse, nada perguntou, ficando apenas consigo mesmo, no mundo da cruel revelação. A mãe era “de programas”. Daí as saídas. As chegadas pela madrugada, nos carros que estacionavam a esquina da casa onde residiam. Os olhares dos outros meninos da rua, numa confirmação sem palavras...

- D. Marta ele dormiu cedo ontem?

- Dormiu Gracinha. Assim que você saiu ele foi pra cama.

A mãe se aprontava de novo. A blusa branca, as calças azuis, os sapatos pretos, de saltos altos. As mãos de longos dedos penteando os cabelos negros, lustrosos para trás. Os movimentos graciosos. Ele e D. Marta seguindo a cena. O beijo na face e a recomendação:

- Atenda a D. Marta.

Seu mutismo. Cabisbaixo, os olhos fitando os sapatos pretos...

 

2

D. Santana enquanto cuida do almoço, reflete no mutismo do marido, naquela cadeira de balanço, ali na varanda. Antônio está cada vez mais esquisito, mal lhe dirige a palavra, fechado num silêncio...

- Será que tá doente?

Mas, ele sempre foi de falar pouco, é do seu temperamento. Sim, e com a idade... Põe a vasilha sobre o fogão. Acende-o e com a colher vira a carne, para não queimar.

Ah, o seu marido está se entregando à velhice, não reage, acomoda-se. Será que ele está bem, não precisa de nada? Desliga o fogão e devagar se retira da cozinha, cruza o corredor, a sala e chega à porta que dá acesso a varanda.

Antônio cochila. O rosto mais pálido, de traços corretos caído sobre o tronco franzino. Os braços finos, compridos, as mãos de dorsos manchados pela “ferrugem” da idade.

Sensibilizada, retrocede, respeitando-lhe o repouso. A fuga ao mundo íntimo, egoisticamente íntimo.

Acende novamente o fogão e com vagar vira o bife. Pensativa.

 

3

 A voz da filha o desperta:

- Pai?

Abre os olhos surpreso.

A moça se avizinha. Envergando-se, beija-lhe   a face e, sorrindo:

- Cheguei agorinha. O senhor aí cochilando... Tá tudo bem pai?

Ele sorri, sentindo-se outro com essa repentina  visita da filha, a Verinha, que cada vez mais se assemelha a OUTRA. 

O rosto alvo, de traços bem definidos. Os olhos grandes, negros. O sorriso de covinhas coradas. Os cabelos negros, sedosos, longos. A irradiação que transmite, nos contagia...

- Tá filha, tudo bem. E como vai o menino?

- Agora mesmo está no colégio. Está tão sabido pai!

- Imagino, imagino.

- Bom, deixe-me ir falar com a mãe, que deve estar na cozinha, fazendo aquelas comidinhas gostosas.

Ausenta-se. O andar gracioso. Os passos nos sapatos pretos, altos. Os braços longos no gingado feminino... A recordação. Ele menino. D. Marta que cuidava dele. As saídas. Os sapatos pretos, altos, os passos...

- Mamãe!

O grito que o liberta do passado, que faz a filha parar a entrada do corredor que dá acesso à cozinha.

Imóvel, ela teme retroceder e vê o que de repente entende nesse grito, enquanto os passos nervosos de D. Santana vêm da cozinha. Então, sem palavras se comunicam e, apressadas encaminham-se à varanda.

 

 

A janela larga, aberta. Os edifícios defrontes. Imponentes, modernos, bonitos, de varandas desertas.

Atrás desses a semi-escuridão devido à iluminação dos andares das construções e postes na avenida embaixo, com um ou outro veículo cruzando-a e esparsos pedestres apressados, temerosos das traições do inesperado. O vento adentra frio, contudo, aconchegante. A moça se a chega mais e, de repente, pensa: E se... 

No leito, o “coroa” analisa-a. Satisfeito com as poses das cenas curtidas no jogo delicioso do amor. Morena, esguia, tipo manequim. Hoje em dia, tudo é “pra frente”, sem tabus! Mas, o seu dinheiro também contribui (e muito!) para os prazeres.

- Carina sai daí, vem até aqui, “gata”.

O chamado. E a mocinha então resoluta subindo no peitoril da janela, se destaca mais ao baixar e erguer os braços, imitando os gestos de asas de uma ave ao se preparar para alçar vôo e de um impulso nervoso se joga para fora, no doido vôo do desespero.

- Carina que foi que você fez criatura!

A voz rouca do homem no grito da perplexidade e de um salto abandona o leito, correndo para a janela, querendo vê, se dizer que tudo não passa de uma terrível alucinação da mente imaginosa, perturbada por as doses excessivas antes de subir ao quarto com a Carina.

Embaixo, na calçada, o corpo e o sujeito apressado chegando, enquanto o carro  estaciona e o seu condutor também rápido se avizinha.

- Puta que pariu! Vai sobrar pra mim...

Suando, trêmulo ele então se veste, cruza o ambiente, abre e fecha a porta por fora e dirige-se ao elevador defronte. E agora? As manchetes sensacionais dos jornais, os noticiários da TV. O escândalo!

Pressiona com força o botão, chamando o elevador.

Logo a porta se abre e ele adentra de um pulo. Sozinho fixa os números vermelhos, acesos que indicam a descida. Aí, incapaz de se conter, chora, na descontração de se tornar pequeno ao tamanho da enorme aflição.

Agora a porta se escancara e... Três homens esperam-no.

Resignado, cabisbaixo, vai ao encontro desses, vencido como está à própria realidade.

Cortando a madrugada alta se ouve a sirene da ambulância vindo, no socorro inútil.

Os homens se afastam, dentro do mutismo que diz tudo. Tudo...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O(A) escritor(a) Paulo Valença escreve para o Canto do Escritor desde Dom, 03 de Maio de 2009.

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