
Escrito por Rubo Medina Sáb, 23 de Janeiro de 2010 14:00
- Quero um filé de peixe ao molho de tamarindo e vagem cozida na água e sal, bem verdinha. Sal puro mesmo! E azeite de oliva. Puríssimo!
- Algo mais, senhor?
- Morei nos Estados Unidos!
- E... ?
- Lá eu era Busboy...
- Quê isso?
- Um tipo de serviço que a gente faz em restaurantes, recolher das mesas utensílios usados pelos clientes...
- Ah! Sou louco pra ir pra lá. Faturar uma grana. Vim do Maranhão há pouco tempo. Aqui a gente rala muito e ganha uma merreca. Nem dá pra sobreviver. Algo mais, senhor?
- Só um lembrete: se por acaso o peixe tiver espinho, um espinhozinho sequer, processo o restaurante!
A ameaça soou bem séria. Logo após, o cliente voltou a comentar:
- Nos Estados Unidos não se encontra espinho em peixe. Nem pra remédio! Aqui é essa z... ! Mais espinho que peixe!
- Certo! Vou dizer ao Chef.
O garçom saiu apressado. Outro cliente, sentado à direita do exigente, se dirigiu a ele, puxando conversa. Esse era um homem grisalho na casa dos 50, muito bem vestido e perfumado, o qual exibia na mão peluda, um anel de formatura.
As mesas eram próximas, mas os dois trocaram apenas poucas palavras. Vinte minutos depois o garçom voltou com o pedido. O cliente que disse ter morado nos Estados Unidos pediu licença e começou a comer. Quando terminou a refeição, o homem grisalho quis saber:
- Satisfeito?
- Sim!
- Disse que morou nos Estados Unidos. Também morei. Fiz Pós na Harward. Realmente o que disse a respeito do peixe é verdade. Lá a coisa é séria...
Falou sem encarar o exigente cliente, remexendo no prato onde havia uns restinhos de comida.
- Não encontrou espinhos?
- Graças a Deus não!
O grisalho brincou com o garfo, ao mesmo tempo em que enfiava a mão direita no bolso do paletó, de onde puxou uma carteira. Abriu-a e tirou uma identificação de Advogado, que deixou discretamente visível sobre a mesa
- Também comi peixe, mas não dei tanta sorte. Veja!
E mostrou os espinhos.
- Não mesmo...
- O senhor ameaçou processar o restaurante acaso encontrasse espinhos. Podemos abrir o processo.
Disse, remexendo ostensivamente alguns espinhos no prato com o garfo e com a outra mão, alisando a carteira de advogado.
- Como?
- Deixa eu lhe dizer!
Logo após, houve uma troca de olhares mais intensa entre os dois, uma aquiescência, e começaram a conversar novamente. O garçom voltou. O exigente freguês mudou de postura.
- Eu disse que processava o restaurante se encontrasse espinho. E isso aqui, o que é? Me diga!
O garçom ficou embaraçado, sem argumentos. Gaguejava, tentando encontrar as desculpas necessárias. O grisalho se intrometeu, enfiando a mão no bolso do paletó e tirando a carteirinha de advogado que havia guardado.
- O cliente tem razão! Poderia ter se engasgado. Estou aqui como advogado para defender os seus direitos... Gostaria, senhor?
O garçom arregalou os olhos. Achou a situação meio estranha, mas imediatamente mudou de atitude.
- Querem saber de uma coisa? Tô por aqui com esse restaurante. Pedi pra me mandarem embora e eles não estão nem aí. Nós três podemos ferrar o dono!
Os dois clientes, embora surpresos, responderam quase em uníssono.
- De acordo!
Para ganhar tempo e traçar a estratégia do golpe, o advogado pediu outro filé de peixe, um suflê de damasco e uma taça de vinho, completando:
- Então estamos combinados. Vamos arrastar uma grana aqui. Traga o meu pedido, dê um tempinho, depois chame o Gerente. Vamos ameaçar um escândalo pra ver no que dá!
O garçom saiu quase correndo. Não demorou muito e voltou com o pedido. Quando viu que o advogado estava terminando o suflê antes mesmo de comer o filé, voltou à sua mesa. Conversaram. Depois foi até o scotch bar e chamou o Gerente. O cerco estava se formando.
O Gerente, um rapaz jovem, alto e louro, trajando um caríssimo terno azul-marinho, veio até a mesa do exigente freguês. O garçom se antecipou:
- Este senhor quase se engasgou. Encontrou espinhos no peixe. Ele já morou nos Estados Unidos e lá, espinhos dão processo. O Sr sabia disso?
O Gerente arregalou os olhos verdes, que de um segundo para o outro se tornaram cinza. O exigente freguês confirmou, mostrando uns três espinhos colocados cuidadosamente num canto do prato, enquanto o grisalho, fingindo-se alheio à conversa, cortou uma fatia do segundo filé que antes nem havia tocado e levou à boca.
Como eles estavam sentados num canto do restaurante, ninguém percebeu o que se passava. O gerente, confuso, pediu licença e foi saindo, quando algo fez com que parasse. De olhos arregalados, avançou apressadamente para a mesa do grisalho e gritou:
- Gente, esse homem está se engasgando com espinhos... Será que tem algum médico aqui? Rápido... celular... alguém chame uma ambulância...
Tudo aconteceu em questão de segundos.
O advogado se debatia. Baba escorrendo pela boca. Como era muito branco, seu rosto já estava adquirindo a coloração de pimenta. Não conseguia falar. Apenas gemia e gesticulava, quase sem ar. Um outro cliente correu ao seu socorro. Forçou o queixo dele pra baixo e abriu a sua boca violentamente. Enfiou um dedo até a sua garganta e puxou com determinação. Sangue escorria na gola da camisa azul do homem, que nessa altura já estava sem o paletó. O cliente arrancou de sua garganta um espinho do tamanho da cabeça de um dedo:
- Pronto! Dessa o senhor não morre!
Ele suava. Não conseguia dizer nada. Apenas enxugava o sangue que não parava de escorrer.
Ouviu-se na noite o barulho de uma ambulância parando no imenso estacionamento do restaurante. Enfermeiros e paramédicos correndo.... uma maca... vidro de soro... Uma agitação. E o vermelho da sirena formando imagens desastrosas nos espelhos do interior do estabelecimento. O exigente freguês aproveitou o tumulto e saiu de fininho.
O garçom, aquele que queria fazer parte do complô... cadê ele?
- Garçom!!!
Chamando... Alguém gostaria de fazer um pedido?
Publicado na Antologia CONTOS DA MADRUGADA, da CBJE.
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|Author |2010-01-23 16:02:57 Rubo Medina
OS CORRUPTOS - com locações em Brasília. Não perca...
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|201.54.208.xxx |2010-02-05 13:37:32 Suzana - AdoreiIrônico, engraçado e VERDADEIRO!
Parabéns!
Quem sabe na próxima ida à BSB não vou a esse restaurante????
Beijo e obrigada pela indicação!
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|Author |2010-02-05 15:19:58 Rubo Medina
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|Author |2010-01-23 22:51:14 Licia Falcão
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|Author |2010-01-24 02:33:10 Licia Falcão
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|201.8.163.xxx |2010-01-24 14:02:00 Gomes da SilveiraUm conto político, excelente. Brasília é mesmo um celeiro da corrupção, rsss. Um abraço, parabéns, seu texto etá brilhante.
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|Author |2010-01-24 19:15:59 Pri Beletato
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|Author |2010-01-25 03:09:56 Rubo MedinaINTERESSANTE é o seu comentário, amiga Pri. O meu conto é apenas uma historinha trivial, mais dosada de “merchandise”. Nada de excepcional! Com apenas uma palavra – INTERESSANTE - você consegiu comentar um conto de três laudas. Fez mais proeza do que os 140 caracteres exigidos pelo Twitter no microconto...rs. Isso é INTERESSANTE. Por outro lado, conhecemos a inteligência do escritor que, diga-se de passagem, é algo que ele nos acrescenta ao escrever, também nos comentários. Isto é INTERESSANTE e foi visto aqui. Agradeço-lhe, deixo-lhe abraços e o meu agradecimento pelo comentário. Volte mais vezes, ok?
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|189.79.71.xxx |2010-01-25 04:05:22 AnônimoAo que parece amigo Rubo, em Brasília, respira-se corrupção.Bastou um inventar uma maneira de dar o golpe, que até quem deveria fazer valer a lei, entrou na jogada...
A possibilidade de ganhar dinheir fácil, corrompe os fracos de carater, não tem jeito!
E esses estão em todas as classes, em todas as profissões em todos lugares(claro que em Brasília tem mais.. rsrs)e é uma pena que nem todos encontrem "uma espinha de peixe"...
Gostei muito!
Vc se supera a cada dia.
Bjks
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|Author |2010-01-25 11:29:21 Rubo MedinaLeila, nem precisava dizer que a anônima é vc. Seu estilo é inconfundível. Basta a gente ler a primeira linha e sabe que é vc... rs. E tem mais uma excelente qualidade: vc extrapola o texto. Vai além. Lê até as entrelinhs. E para coroar tudo isso, os seus comentários são simplemente brilhantes. Escrevo sabendo que terei a honra de vc ler. Obrigado, beijos, tenha um bom dia.
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|189.79.72.xxx |2010-01-25 16:04:00 Leila D
Ora Rubo... o texto tem qualidade é de fácil compreensão...Os méritos são apenas seus.
Bjoooooo
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|Author |2010-01-25 17:25:47 lucianemonteiro
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|Author |2010-01-25 22:07:26 Rubo MedinaEstava lendo o seu comentário novamente e vi que você observa um aspecto bem interessante que está nas entrelinhas da trama: quem não é CORRUPTOR quer ser CORROMPIDO. Concluímos, pelo seu comentário, que um texto, seja ele qual for, bem explorado, gera elementos que podem levar até a um debate (não que o meu tenha elementos suficientes para tal), mas é o que você me passa nessa descoberta de coisas que nós, ao escrevermos, nem pensamos que existem. Excelente! Nota 10.000!
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|Author |2010-01-30 22:34:42 Licia Falcão
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|Author |2010-01-31 00:08:50 Rubo Medina
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|189.79.105.xxx |2010-01-31 00:06:11 Leila DEsse texto,Rubo, lido com atenção e comparando com os fatos atuais, com o comportamento da sociedade em geral, nos faz refletir sobre a corrupção e como de tanto parecer comum, convivemos com ela sem dar muita importância.Seja entre políticos, seja no dia a dia. São propinas a fiscais, a guardas de trânsito, unzinho por fora para agilizar um serviço na prefeitura e por aí vai...
Engraçado é que nós, sociedade, desejamos que não haja corrupçao, mas nós fazemos vista grossa e ás vezes tb corrompemos.
Um bom texto faz isso.Nos faz repensar atitudes.
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|Author |2010-01-31 00:12:45 Rubo Medina
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|189.58.241.xxx |2010-01-31 00:14:28 Ândria OrtizParabéns, Rubo!
Sou nutricionista e gerente de restaurante.
Problemas como esse são o pesadelo de qualquer profissional na nossa área!
Bem lembrado!
Parabéns! Abraços!
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|Author |2010-01-31 00:21:54 Rubo Medina
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|Author |2010-01-31 00:38:56 Licia Falcão
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|Author |2010-01-31 00:41:33 Rubo Medina
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|Author |2010-01-31 00:48:49 Licia Falcão
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|Author |2010-01-31 01:00:21 Rubo Medina
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|Author |2010-01-31 01:07:24 Licia Falcão
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|189.58.241.xxx |2010-01-31 01:25:34 Ândria OrtizSim, Rubo!
Nos EUA tuuuuudo vira processo. E essas pessoas que "acham" coisas nos pratos são bem comuns... Uma vez "encontraram" uma agulha dentro de um prato de massa... Vê se pode???? e o pior é que o gerente não pode fazer nada mesmo.. A não ser isentar a pessoa do pagamento e torcer pra que não haja escandalo!
E voltarei aqui mais vezes, pode deixar!!!
Abraços!
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|Author |2010-02-04 22:29:43 CELLYME
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|Author |2010-02-04 22:38:32 Rubo Medina
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|Author |2010-02-09 16:25:10 Rubo Medina
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|Author |2010-02-09 16:30:12 Licia Falcão
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|Author |2010-02-09 16:31:43 Licia Falcão
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|Author |2010-02-09 17:04:35 Rubo Medina
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|Author |2010-02-09 20:36:56 paulo.valenca@ig.com.br
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|Author |2010-02-13 14:33:35 Angel
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|Author |2010-04-21 16:31:39 Rubo Medina
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|195.22.29.xxx |2010-06-24 09:07:23 Conceição Valente (MAVA)Adorei seu conto, Deus não dorme só cochila de vez em quando. Este é o retrato da corrupção infelizmente em muitos países, mas o castigo não se fez esperar e voçê soube dar as voltas todas direitinhas...
Um abraço
Conceição
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|Author |2010-06-25 17:47:05 Rubo Medina
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|Author |2010-06-27 18:13:50 Lannes Almeida
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|Author |2010-06-28 11:09:21 Rubo Medina
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|Author |2010-07-26 01:09:12 Rubo Medina

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